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Gênero09 de março de 2026

Silenciamento e a Experiência LGBTQIAPN+ na Clínica

"A linguagem comum não lhe cabe, mas como falar dessa outra que nem existe?"

Quando pessoas LGBTQIAPN+ chegam à clínica, é preciso formular uma questão ética: tratar o sujeito apenas como indivíduo, ignorando a falta de representatividade e os atravessamentos sociais que constituem sua experiência, não seria repetir, no espaço analítico, o mesmo silenciamento produzido pela cultura?

A psicanálise sempre se ocupou da singularidade do sujeito. No entanto, a singularidade não existe fora da história, da cultura e das estruturas sociais que moldam a vida psíquica.

Quando a clínica ignora esses atravessamentos, corre o risco de repetir, ainda que de forma sutil, o mesmo apagamento que muitos sujeitos já enfrentaram ao longo de suas vidas.

Há uma frase que expressa bem essa dificuldade de nomear certas experiências:

"A linguagem comum não lhe cabe, mas como falar dessa outra que nem existe?"

Essa pergunta aponta para um problema fundamental: nem todos os afetos encontram lugar nas linguagens disponíveis da cultura.

A linguagem do amor que nos foi ensinada na infância, por exemplo, raramente foi construída para acolher a diversidade das experiências humanas. Ela foi, em grande parte, desenhada para corrigir.

O afeto não nos foi apresentado como um espaço de liberdade, mas como um campo de normas. Desde cedo aprendemos que o amor está condicionado à adequação: para ser amado, é preciso ser correto.

Mas quem definiu o que é correto?

Aquilo que frequentemente aparece como "natural" no campo do amor é, na realidade, um código social. Um código que determina quais formas de amar são visíveis, celebradas e reconhecidas, e quais devem permanecer ocultas, corrigidas ou silenciadas.

Pessoas heterossexuais crescem cercadas por narrativas que validam seus afetos. O amor que experimentam aparece nos filmes, nas novelas, nas músicas, nos livros e, muitas vezes, nas próprias histórias familiares.

Existe um espelho constante que devolve a essas pessoas a mensagem de que o seu desejo é legítimo e possível.

Para muitas pessoas LGBTQIAPN+, no entanto, a experiência é bastante diferente.

Há, frequentemente, uma ausência profunda de representatividade.

Quando o amor que você sente não aparece nas histórias contadas ao seu redor, ou aparece apenas como tragédia, segredo ou desvio, instala-se uma insegurança subjetiva. Sem referências de afeto saudável, o sujeito pode internalizar a ideia de que o seu desejo é, em si, inadequado ou errado.

É importante compreender que a toxicidade que por vezes aparece em relações homoafetivas não é um traço da orientação sexual. Muitas vezes, ela é consequência de algo anterior: a ausência de modelos de amor saudável.

Sem referências de conflitos que possam ser resolvidos com cuidado, sem exemplos de carinho público ou de relações que existam sem punição, muitos sujeitos acabam aprendendo sobre o amor em condições de escassez simbólica.

Assim, o amor pode passar a ser vivido como algo condicional.

Ama-se, mas com reservas.

Ama-se, mas escondendo partes de si mesmo.

Ama-se, mas sempre atento ao momento em que será necessário calar, disfarçar ou desaparecer.

Se o amor que nos cercava estava condicionado ao pertencimento ao que é considerado "correto", então fomos alfabetizados em uma linguagem afetiva marcada pela omissão. Uma alfabetização feita de silêncios, vigilância e medo.

E mãos que aprenderam a se esconder nem sempre sabem, de imediato, como tocar sem receio.

Quando todo gesto de afeto esteve, em algum momento, associado ao risco de rejeição ou violência, permitir-se ser amado pode se tornar uma experiência profundamente desafiadora. Falta um registro interno que sustente a ideia de que o toque também pode ser seguro.

Nesse contexto, o amor muitas vezes se transforma em performance.

O sujeito passa a encenar versões de si mesmo que acredita serem mais aceitáveis, mais desejáveis ou menos ameaçadoras. Mas quando alguém não sabe quem é fora da máscara social, entregar-se genuinamente a outra pessoa torna-se um processo complexo.

É nesse terreno que podem surgir jogos de poder, medo intenso de abandono, necessidade de controle ou dificuldade em sustentar a própria vulnerabilidade.

Não porque exista algo inerentemente disfuncional nesses amores, mas porque a própria cultura, por muito tempo, negou a essas pessoas o direito de aprender a amar em segurança.

A heteronormatividade não opera apenas como uma regra social. Ela organiza também a própria estrutura simbólica do amor, estabelecendo oposições rígidas, masculino e feminino, ativo e passivo, que reduzem a multiplicidade das experiências humanas.

Para muitas pessoas LGBTQIAPN+, amar significou, durante muito tempo, sobreviver.

Sobreviver ao silêncio, à repressão e à necessidade constante de traduzir o próprio desejo para um idioma que nunca foi realmente reconhecido.

Um idioma no qual faltam palavras para nomear certos afetos, certas formas de cuidado, certas maneiras de existir em relação.

E essa tradução permanente tem efeitos.

Nos relacionamentos, ela pode aparecer como ciúme excessivo, medo intenso de abandono ou agressividade defensiva. O sujeito, muitas vezes, reproduz a violência simbólica que recebeu ao longo da vida. Não por escolha consciente, mas porque foi nesse território que sua experiência afetiva foi construída.

É por isso que falar em letramento afetivo também é falar em reaprendizado.

Amar não é apenas um sentimento espontâneo; é também uma prática que precisa ser ensinada, cultivada e reinventada.

Criar novas gramáticas emocionais, novos espelhos e novas narrativas onde diferentes formas de amor possam existir é, ao mesmo tempo, um movimento subjetivo e político.

Letrar-se afetivamente é aprender a falar uma língua que durante muito tempo foi negada.

E, muitas vezes, é também inventá-la enquanto se aprende a falar.

Tábata Yokomiso

Ref Literárias

Problemas de Gênero — Judith Butler / Confusão de Línguas entre os Adultos e a Criança — Sándor Ferenczi

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