O Lugar Que Não Tem Endereço
Antes de falar do Meu Lugar, gostaria de falar sobre o Não Lugar, aquele que teoricamente te exclui, recusa e te apaga.
O antropólogo Marc Augé define o conceito de não lugar como um espaço de transitoriedade, onde não se constroem identidades. São lugares como aeroportos, rodovias, shoppings e etc. Ambientes de passagem, sem senso de pertencimento.
E, curiosamente, é justamente nesses não lugares que, de alguma forma, eu me reconheço. São neles que existo ou resisto. E na verdade, foram poucos os espaços que eu realmente habitei e que tive o sentimento de meu lugar.
Minha existência parece ganhar forma justamente nos lugares em que estou de passagem. É ali que me notam. Por mais paradoxo que pareça, é na multidão, onde não se cria identidade, não se firmam conexões, onde a vida passa e ninguém sabe seu nome, que de alguma forma, é ali que eu existo.
Em uma viagem, fiz uma conexão em Joanesburgo, na África do Sul. Era apenas um aeroporto, um espaço de passagem, o lugar no qual não se cria identidade como diria Marc Augé. Mas ao pisar ali, senti algo diferente, era como se meus pés tocassem terras conhecidas, embora nunca antes visitadas.
Era mais que um chão de aeroporto, era como se ali guardasse memórias que atravessaram o tempo e me alcançaram.
Então, vi as pessoas. Roupas vibrantes, estampas vivas, cabelos trançados de maneira impecável ou soltos, volumosos, imponentes. Meus olhos se encheram de lágrimas, meu corpo se arrepiou como se espíritos me envolvessem. Tudo acontecia em um ritmo diferente, os movimentos pareciam dançar em câmera lenta, os gestos carregavam uma musicalidade invisível. O olhar das pessoas, a pele lisa e aveludada… ali, eu soube. Eu pertencia. Ou, talvez, um dia pertenci.
Foram oito horas de espera naquele aeroporto. Oito horas de pertencimento. Em algum momento, o voo partiu, e aquela sensação me acompanhou até então.
Não era apenas identificação, pois me identifico com muitos aspectos das culturas onde conheci e vivi, mas era uma questão de emoção. Algo era intrínseco.
Sempre há muitas teorias, muitas perguntas e quase sempre sem respostas. E, talvez, seja justamente nelas que resida o mistério do nosso existir.
Eu pertenço ao não lugar, a terras que eu nunca pisei, ao vazio das perguntas, aos olhares singulares de quem não me conhece, ao estranhamento daqueles que não conseguem me definir e não podem me rotular.
Esse "meu" lugar é desconfortável, às vezes acolhedor e às vezes ameaçador. É subjetivo e solitário ao pertencimento, é um refúgio e ao mesmo tempo uma fronteira.
O meu lugar não é uma família, não é uma casa, não é um lar, não são amigos, nem cidades. O meu lugar é onde ninguém consegue acessar e muito menos compreender.
É no volúvel e onde não há base e estrutura, que eu passo a existir. Eu estou entre o que sou e o que esperam de mim. Meu lugar nunca foi o da firmeza, mas o da fragilidade movendo-se sempre em busca de um lugar seguro.
Como definir um único lugar quando se vem de tantos outros?
Meu lugar é um exílio. Mas não um completo vazio. É um território invisível, mas povoado por povos antigos. Eles andam comigo, mesmo quando ninguém mais fica. Eles me reconhecem, mesmo quando eu não sei quem sou.
O meu lugar é onde eu posso sentir sem precisar me reduzir, e esse só existe dentro de mim.
Tábata Yokomiso
Ref Literárias
Recusa do não lugar — Juliano Garcia Pessanha
