Caderno de Estudos
Artigo11 de novembro de 2025

Um Lugar possível

ClínicaExistênciaFanonBalint

De quem estamos falando quando falamos do possível? Essa é uma pergunta para toda a psicanálise: quem é o sujeito que pode ou não pode, existir? Quando falamos do "possível", falamos daquele que não teve o direito de existir simbolicamente.

O sujeito que foi silenciado, invisibilizado, invalidado. Aquele que aprendeu que sua dor era "demais", seu desejo "errado", seu corpo "inadequado". Falamos das pessoas que chegam dizendo: "Já tentei outras terapias, mas não parecia possível pra mim." "Não me imaginei contando o que sinto a alguém que não me conhece." "Os psicólogos que procurei não entenderam a minha dor, então nunca mais voltei."

Ou seja: o "possível" é pra quem nunca teve a sua existência algo possível, não somente para si, mas para toda uma sociedade. É pra quem foi empurrado para o lugar do inominável, do que não cabe.

A escuta não é acolher, acolher é permanecer diante da fala mesmo quando ela nos rompe de um lugar "confortável", acolher é não subverter e não violentar reduzindo a dor do paciente a uma ideia. É o espaço onde o analista precisa estar inteiro e presente, onde a teoria precisa saber se calar, para que a vida possa falar.

É o momento em que deixamos de aplicar o que aprendemos e simplesmente nos permitimos ser, humanos. Esse espaço onde o sujeito pode se reinscrever na linguagem, não mais como objeto do olhar do outro, mas como sujeito de desejo.

O possível não pertence ao analista, nem é uma promessa. O possível não é dado, ele é construído a cada encontro. Constrói-se quando alguém ousa falar, mesmo sem saber se vai ser entendido. Constrói-se quando o silêncio é respeitado, quando o choro tem espaço, quando o analista não apressa a dor nem tenta traduzi-la e principalmente não a reduz em uma teoria sem contexto social.

Fazer da clínica o lugar do possível é deixar a teoria se curvar diante da vida. Onde a dor, quase insuportável de ser tocada, encontra, enfim, um espaço seguro. É o lugar onde o sujeito descobre que é possível viver e não apenas sobreviver.

Tábata Yokomiso

Referências

  • Neusa Santos Souza - Tornar-se Negro
  • Franz Fanon. Pele Negra, Máscaras Brancas.
  • Michael Balint. A Falha Básica.