Orientalismo, Afeto e a Invenção do Sujeito Amarelo
Nascemos vazios de significados, e é a linguagem que inicia o nosso senso de identidade antes mesmo de sabermos falar. As palavras nos nomeiam, nos classificam, nos explicam e, muitas vezes, nos limitam. O ambiente em que crescemos nos oferece um repertório simbólico: signos, imagens, valores morais, afetos possíveis. A identidade não emerge do nada; ela é moldada por sistemas de significação que dizem quem somos, quem podemos ser e quem nunca deveríamos nos tornar.
Essa arquitetura da identidade, porém, sofre um apagamento de linguagem quando o repertório simbólico oferecido não é um espelho, mas uma lente de distorção. Para o sujeito racializado, o processo de tornar-se humano é muitas vezes interrompido por uma tradução forçada: a substituição de sua essência por uma definição estrangeira. A linguagem, portanto, não é apenas meio de comunicação. Ela é uma estrutura de poder.
Esse mesmo processo que constrói o sujeito individual opera também na escala histórica da colonização. Povos inteiros foram traduzidos, descritos, definidos e reduzidos a signos que só fazem sentido dentro do conhecimento eurocêntrico. Não se tratava de compreender o outro, mas de torná-lo legível dentro do saber universal, e que coloca a Europa como centro epistemológico do mundo.
O Orientalismo é, antes de tudo, um regime de silenciamento. Said nos convida a desconfiar das representações, pois toda produção de conhecimento está situada histórica e politicamente. Alertando-nos para o fato que o que parece "cultural" e "inofensivo" é na verdade o resultado de recortes e apagamento social. Nada surge de uma forma neutra. O conhecimento sobre "o outro" deve levar em consideração o lugar do pesquisador, autoridade etnocêntrica e principalmente os efeitos políticos.
Trago um recorte especificamente do leste asiático. No passado éramos o "Perigo Amarelo" — bárbaros, ameaçadores, uma massa irracional e mística, que comem alimentos "nojentos". Em um passado não tão distante, mesmo com o engajamento positivo da cultura asiática em vários países, a pandemia da Covid-19 escancarou mais uma vez o racismo e a xenofobia presente contra as pessoas de origem asiática. A facilidade com que o corpo amarelo foi re-estigmatizado como uma ameaça biológica prova que a nossa humanidade é condicional e uma construção volátil.
Atualmente, temos a Ásia dominando lugares de prestígio no mundo, como nas músicas pop, nos doramas, nos jogos e animes. Comer em restaurante japonês virou status, sofisticação que merece ser compartilhada em suas redes sociais. A linguagem do orientalismo contemporâneo opera através do afeto e do consumo. Também é uma forma do oriente se comunicar novamente e dizer "não somos perigosos, somos amáveis, fofos e sofisticados".
Passamos de bárbaros a objetos de desejo polidos, emocionalmente disponíveis e esteticamente refinados. Mudar o conteúdo da fantasia não altera a estrutura da dominação. O Orientalismo continua a nos reduzir a um tipo, domesticando a nossa alteridade. A série da Netflix "Meu namorado coreano" é um produto para uma fixação de papel que nos nega a humanidade, a raiva e a desordem. É a substituição do ódio pelo fetiche, ou do fetiche pelo ódio, mantendo-nos, de qualquer forma, prisioneiros dessas poucas definições.
O "Fetiche da Mercadoria" Cultural: O Oriente deixa de ser um território a ser conquistado e passa a ser uma estética a ser consumida. Isso desumaniza tanto quanto o ódio, pois retira a subjetividade e a substitui por uma embalagem.
Essa violência se infiltra no lugar que deveria ser de cura: a clínica. Quando a experiência amarela é levada ao divã, ela frequentemente encontra uma escuta contaminada pelo signo eurocêntrico. A Desumanização pelo Elogio: Quando nos chamam de "esforçados", "inteligentes" ou "centrados", não estão nos descrevendo; estão nos enclausurando. O elogio que nos rotula como "calmos" é o mesmo que invalida nossa dor, tratando o racismo como "sensibilidade excessiva".
O Silêncio como Sintoma de Resistência: Onde o terapeuta vê passividade ou reserva cultural, existe, muitas vezes, uma estratégia de sobrevivência. O silêncio não é ausência de conteúdo; é uma muralha erguida contra um mundo que só nos escuta se falarmos a língua do seu estereótipo. A Interdição do Sagrado: O simbólico asiático é tratado como exótico, decorativo e infantil, retirando do paciente o direito à sua própria transcendência. O sujeito racializado precisa habitar em uma língua que o nega.
É preciso denunciar que toda representação "neutra" é uma escolha política. O Oriente de Said ainda respira em cada "elogio" que nos desumaniza. Nossa tarefa é romper o espelho de papel onde o Ocidente se projeta e retomar a identidade que não cabe em nenhum catálogo de poder.
Tábata Yokomiso
Referências
- Edward Said. Orientalismo. O Oriente na invenção do Ocidente.
